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sábado, 12 de setembro de 2026

A CHAVE

A CHAVE
Ou o número que nunca para de mudar

Autor Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A casa não guarda os mortos. Guarda quem vem depois.
A chave tinha o número 7 gravado à mão. Quando voltei no sábado seguinte, era 8.
Naquela primeira vez, não dei importância.
Chaves antigas têm números. Heranças têm chaves. Mortos deixam coisas que ninguém sabe onde guardar.
Minha tia Vera tinha morrido sozinha num apartamento em Curitiba, sem que ninguém soubesse dizer quando exatamente começara a morrer.
Foi o que o advogado disse, empurrando uma pasta sobre a mesa:
— Ela faleceu em casa, senhor. Há algumas semanas, talvez.
Algumas semanas.
Como se a morte fosse uma coisa que se pudesse estimar com margem de erro.
Assinei os papéis. Peguei a chave. O ferro estava frio e áspero, com uma pequena rebarba perto do número. Coloquei‑a no bolso do casaco e fui embora.
Não conhecia minha tia bem o suficiente para sentir muita coisa.
Víamo‑nos uma vez por ano, em dezembros que terminavam cedo. Ela sempre me tratava como alguém que reconhecia, mas não sabia nomear. Era magra, silenciosa e tinha o hábito estranho de olhar para as paredes enquanto falava.
Eu era o único parente vivo.
A casa em Morretes ficou para mim porque não havia mais ninguém.
Não fui imediatamente.
Deixei a pasta e a chave sobre a mesa da cozinha durante três semanas. Trabalhava, chegava tarde, dormia mal e acordava quase sempre às cinco da manhã com o elevador subindo pelo poço do prédio.
Meu casamento tinha acabado em março.
Minha ex‑mulher levou os móveis da sala e deixou os pratos.
Eu não sabia o que fazer com os pratos.
Continuava usando todos.
À noite, depois de comer, lavava apenas o meu e o deixava sempre no mesmo canto da pia, virado para baixo. Era uma mania antiga. Não sabia de onde vinha.
O advogado ligou duas vezes.
Na segunda, disse que precisava resolver a papelada do imóvel.
Entendi a mensagem.
Fui a Morretes num sábado.
Na véspera, lembrei de uma coisa.
Numa festa de Natal, quando eu tinha dez anos, minha tia Vera me segurou pelo braço ao passarmos perto da parede da sala.
Apertou com força.
Olhou para mim e disse, baixo, como se falasse com outra pessoa:
— Não durma em Morretes.
Depois soltou meu braço e continuou andando.
Nunca mais tocou no assunto.
Eu não sabia por que aquela lembrança havia voltado justamente naquela noite.
Fiquei sentado no sofá durante alguns minutos, olhando para a chave sobre a mesa.
O número 7 parecia mais fundo do que antes.
Passei o polegar sobre a gravação.
O metal estava frio.
Guardei a chave no bolso.
Não durma em Morretes.
Fui dormir.
A estrada eu conhecia.
BR‑277, a descida da Serra do Mar, a neblina que aparecia depois do túnel, o cheiro de mato molhado entrando pelo ar‑condicionado.
Parei num restaurante antes do trevo e comi um barreado que me pesou no estômago. Depois segui pela estrada secundária que o advogado desenhara num guardanapo.
Depois da ponte de madeira, a rua de terra.
A casa ficava no fim.
Era baixa, de alvenaria pintada de branco, com telhado de duas águas e uma varanda estreita que corria por toda a frente.
Ao lado, o rio.
Atrás, a mata.
Havia marcas escuras na parede lateral, quase na altura da cintura, como se a água tivesse subido até ali muitos anos antes.
Janelas fechadas.
Porta intacta.
Jardim tomado pelo mato, mas não destruído.
Parei diante da varanda.
A casa parecia menor do que eu imaginava.
Havia quatro cadeiras junto à mesa da varanda.
Quatro.
Minha tia morava sozinha.
Subi os três degraus.
O silêncio chamou minha atenção antes da casa.
Não havia pássaros.
Nem grilos.
Nem o ruído do rio.
Só minha respiração e o som das botas na madeira.
A chave entrou na fechadura sem resistência.
Girei.
A porta abriu.
Dentro, cheiro de madeira úmida, poeira e alguma coisa adocicada que não consegui identificar.
Móveis cobertos por lençóis brancos.
Mesa de jantar.
Quatro cadeiras.
Um aparador.
Na lareira, cinzas frias.
Nas paredes, nenhum quadro.
Só papel de parede desbotado.
No centro da sala havia uma tábua diferente das outras.
Mais clara.
Mais nova.
Como se tivesse sido trocada recentemente.
Ajoelhei‑me.
Passei a mão sobre ela.
Estava fria.
Não fria como a madeira molhada.
Fria como metal.
Encostei o ouvido.
Nada.
Então ouvi alguma coisa.
Tão baixa que, por um instante, pensei ter sido minha própria respiração.
Uma voz.
Do outro lado da madeira.
— …não devia ter vindo…
Levantei‑me num salto.
Fiquei olhando para o chão.
A casa estava vazia.
Quando saí, tive a impressão de ver uma mancha azul entre as folhas, perto dos degraus.
Parei.
A mancha desapareceu.
Talvez fosse apenas um pedaço de plástico.
Não fui verificar.
Tranquei a porta e dirigi de volta sem parar.
Naquela noite, não dormi.
A frase permanecia na cabeça.
Não devia ter vindo.
Na segunda, voltei ao trabalho.
Na quarta, encontrei a chave sobre a mesa da cozinha.
Eu não me lembrava de tê‑la tirado do bolso.
Peguei‑a.
O número tinha mudado.
O 7 havia desaparecido.
Agora era 8.
Fiquei alguns segundos olhando.
Passei a unha sobre a gravação.
O ferro parecia ter sido riscado recentemente. Havia uma aspereza nova ao redor do número, como se a marca ainda estivesse fresca.
Coloquei a chave debaixo da luz.
Não havia dúvida.
Naquela noite sonhei com a casa.
Eu estava na varanda.
O rio passava escuro atrás das árvores.
Havia uma criança sentada no primeiro degrau.
Não via o rosto.
Só a camiseta azul desbotada.
Um rasgo no ombro.
Ela não se mexia.
Acordei às cinco da manhã.
O elevador estava parado no meu andar.
Por alguns segundos, ouvi alguém respirando do outro lado da porta.
Não abri.
Voltei a Morretes no sábado seguinte.
Não sei explicar por quê.
Talvez pela chave.
Talvez pela voz.
Talvez porque algumas coisas começam a ocupar espaço demais dentro da cabeça e, quando percebermos, já não conseguimos pensar em outra coisa.
Peguei o carro às seis.
Não comi.
Não ouvi rádio.
A casa estava igual.
A varanda.
As quatro cadeiras.
O rio.
O silêncio.
Mas, quando entrei, percebi que alguém havia arrumado tudo.
Os lençóis não cobriam mais os móveis.
Estavam dobrados sobre a mesa de jantar.
As cadeiras haviam sido alinhadas.
Havia um prato limpo sobre a pia.
Virado para baixo.
Fiquei olhando para ele.
Era exatamente assim que eu deixava o meu em casa.
Toquei no prato.
Ainda estava morno.
Tirei a mão.
No chão da cozinha havia uma fotografia.
Pequena.
Quadrada.
Preto e branco.
Uma menina de uns sete anos, de tranças, sentada na varanda.
Atrás dela, o rio.
Ela não sorria.
Virei a fotografia.
No verso, escrito a lápis:
Vera, 1974.
A letra era trêmula.
Fiquei olhando paraquelas palavras.
Por alguma razão, tive a impressão de reconhecer a letra.
Guardei a foto no bolso.
Fui até o quarto.
A cama estava feita.
Em cima do criado‑mudo havia um livro de receitas, capa dura, lombada gasta.
Abri.
Páginas amareladas.
Anotações nas margens.
Entre a página 34 e a 35 havia um recorte de jornal.
A data era de 1974.
A manchete dizia:
MENINA DE SETE ANOS DESAPARECE EM MORRETES

Li o texto abaixo.
A menina havia desaparecido durante a noite.
A família afirmava que todas as portas estavam trancadas.
A polícia não encontrou sinais de arrombamento.
A criança se chamava Vera.
Dobrei o recorte.
Minha mão tremia.
Guardei‑o junto da fotografia.
Voltei para a sala.
Ajoelhei‑me diante da tábua.
Dessa vez, ouvi antes de encostar o ouvido.
Uma criança respirando.
Depois:
— …você devia ter ficado longe…
Era minha voz.
Não a minha voz de agora.
A minha voz de criança.
Aguda.
Fina.
A voz que eu tinha aos sete, oito, nove anos.
Uma voz que eu não ouvia havia décadas.
Uma voz que eu não sabia que ainda existia.
Levantei‑me devagar.
Na parede havia uma fotografia.
Eu tinha certeza de que não estava ali antes.
Moldura de madeira escura.
Retrato 3×4.
Meu rosto.
Mais jovem.
Talvez dez anos.
A fotografia parecia antiga, embora eu soubesse que não era.
Abaixo dela havia uma etiqueta amarelada.
VERA
A letra era a mesma da fotografia da menina.
Fiquei olhando para o meu próprio rosto.
Por um instante, tive a impressão de que a fotografia respirava.
Saí da casa.
No centro de Morretes, parei num posto.
Comprei um café.
Sentei dentro do carro.
O café queimou minha língua.
Não senti.
A fotografia estava no banco ao meu lado.
O recorte de jornal, sobre ela.
Vera.
Sete anos.
A casa.
A voz.
O número 8.
E o meu rosto embaixo de outro nome.
Tentei organizar as coisas.
Não consegui.
A lembrança da festa de Natal voltou.
Minha tia segurando meu braço.
A parede.
O olhar dela.
Não durma em Morretes.
Só que havia alguma coisa errada naquela lembrança.
Eu tinha dez anos.
E agora me lembrava de uma varanda que nunca havia visto.
Do rio.
Dos três degraus.
De um corredor estreito.
Da camiseta azul.
De uma porta que eu não conseguia abrir.
Lembrava de ter dormido naquela casa.
Lembrava de ter acordado no escuro.
Lembrava de uma mão segurando a minha.
Mas não conseguia decidir se aquelas lembranças pertenciam a mim.
Passei a semana inteira sem dormir direito.
Ia ao trabalho.
Voltava.
Lavava o prato.
Virava‑o para baixo.
Às vezes ficava alguns segundos olhando para ele.
Na quinta‑feira, encontrei a chave sobre a pia.
Não me lembrava de tê‑la colocado ali.
Peguei‑a.
O número havia mudado.
Agora era 9.
Voltei a Morretes no sábado.
Dessa vez, levei uma mochila.
Não sabia por quê.
Talvez uma parte de mim já esperasse não voltar.
A porta estava aberta.
Entrei.
A casa parecia estar esperando alguém.
As quatro cadeiras estavam à mesa.
Havia quatro pratos.
Um deles estava virado para baixo.
O meu estômago fechou.
Olhei para o centro da sala.
A tábua clara continuava ali.
Mas agora estava levantada.
Havia um alçapão.
Fiquei parado diante dele.
A escada descia para o escuro.
O cheiro que vinha de baixo era de terra molhada, pedra e alguma coisa metálica, antiga, adocicada.
Dei um passo para trás.
Fechei os olhos.
Pensei em ir embora.
Era simples.
Podia vender a casa.
Podia deixar tudo para um advogado.
Podia nunca mais voltar.
Abri os olhos.
A chave estava na minha mão.
Eu não me lembrava de tê‑la pegado.
O número 9 brilhava na palma.
Guardei‑a no bolso.
Saí da casa.
Passei a noite num hotel na entrada de Morretes.
Tranquei a porta.
Deitei.
Não dormi.
Choveu durante horas.
Perto das três da manhã, ouvi alguém andando pelo corredor.
Passos leves.
Descalços.
Pararam diante da minha porta.
Depois seguiram.
Às cinco, o elevador subiu.
O mesmo ruído do meu prédio em Curitiba.
Levantei‑me.
Abri a porta do quarto.
O corredor estava vazio.
No chão havia uma pequena mancha de água.
Peguei a chave.
O metal estava quente.
O número continuava 9.
Fiquei olhando para ele.
Então entendi que podia ir embora.
Podia voltar para Curitiba.
Podia esquecer a casa.
A tia.
A menina.
Tudo.
Foi nesse momento que ouvi, dentro do quarto, a minha própria voz de criança:
— Você prometeu.
Fechei os olhos.
Não lembrava de ter prometido nada.
Mas sabia que havia prometido.
Ao amanhecer, voltei à casa.
A porta continuava aberta.
Entrei.
Atravessei a sala.
Passei pelas quatro cadeiras.
Cheguei ao alçapão.
Desci.
A escada era estreita.
As paredes de pedra estavam úmidas.
O teto era baixo.
No chão havia terra batida.
No canto, uma cama.
Lençóis sujos.
Travesseiro amassado.
Ao lado, uma mesinha.
Um copo de água pela metade.
Havia alguém sentado sobre a cama.
Cabelo escuro.
Camiseta azul.
O rasgo no ombro.
Fiquei no último degrau.
A pessoa levantou os olhos.
Reconheci‑os.
Não sabia de onde.
Ela se levantou.
Era uma mulher.
Ou talvez tivesse sido uma menina.
Não consegui decidir.
Ela me olhou durante alguns segundos.
Então compreendi por que os olhos me eram familiares.
E senti alguma coisa dentro de mim recuar.
Como uma criança escondendo‑se atrás de uma porta.
Atrás de mim, ouvi um ruído.
Virei‑me.
Na parede havia uma fotografia.
Moldura de madeira escura.
Meu rosto.
Mais jovem.
A mesma fotografia.
A mesma etiqueta.
VERA
Abaixo do nome havia uma data.
A data de hoje.
Olhei novamente para a mulher.
Ela estava chorando.
Sem fazer barulho.
Depois disse meu nome.
A voz era a minha.
Mas não a voz que eu tinha agora.
Era a voz que eu tinha aos dez anos.
A voz que dizia:
— Não quero ficar aqui.
Não me lembro de ter subido a escada.
Não me lembro de ter saído da casa.
Não me lembro de ter dirigido até o hotel.
Lembro de uma mão na minha.
Lembro da camiseta azul.
Lembro de alguém dizendo meu nome.
Lembro de ter perguntado onde estava minha tia.
E lembro da resposta.
Não consigo lembrar as palavras.
Só a sensação de que eu já sabia.
Depois, nada.
Estou neste quarto.
A chuva bate na janela.
O rio subiu durante a noite.
O caderno está diante de mim.
A caneta na mão.
Não sei quanto tempo estou escrevendo.
Às vezes acho que escrevo para lembrar.
Às vezes acho que escrevo para alguém encontrar.
A chave está no bolso.
Está quente.
Tiro‑a.
Coloco sobre a mesa.
O número mudou.
Agora é 0.
Fico olhando.
Não sinto medo.
Isso é o que mais me assusta.
Ouço passos no corredor.
Leves.
Rápidos.
Descalços.
Param diante da porta.
Uma respiração.
Depois a voz.
Baixa.
Distante.
Abafada.
— …não devia ter vindo…
Sorrio.
Não sei se é alívio.
Não sei se é tristeza.
Por um instante, penso em minha ex‑mulher.
Nos pratos.
No apartamento.
No elevador das cinco da manhã.
Penso que talvez algumas pessoas passem a vida inteira tentando voltar para um lugar que nunca foi delas.
A porta se abre.
Não olho para trás.
Na manhã seguinte, um funcionário do hotel encontrou o quarto vazio.
A cama estava feita.
O caderno permanecia sobre o criado‑mudo.
A caneta estava alinhada ao lado.
Nenhuma mala.
Nenhuma roupa.
Nenhum sinal de que alguém tivesse estado ali.
Sobre o travesseiro havia apenas uma chave de ferro.
Com um número gravado à mão.
Do lado de fora, na estrada de terra que levava à casa no fim da rua, havia uma criança de camiseta azul desbotada.
Na mão direita, segurava uma chave.
O número 1 estava gravado no ferro.
A criança olhou para a casa.
Depois para a estrada.
E esperou.
— FIM —

O QUILÔMETRO ESQUECIDO

O QUILÔMETRO ESQUECIDO
Algumas estradas não levam de volta

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 Dizem que, na serra, a distância não é a mesma na ida e na volta.
Eu não acreditava nisso até perder oito quilômetros que nunca existiram.
Chovia quando saí de Curitiba. Aquele chuvisco fino que penetra a roupa e deixa o mundo inteiro com cheiro de pedra molhada. Levei uma mochila, o rádio do carro e a culpa. Esta última era a mais pesada.
Havia três meses que Elisa desaparecera.
Saíra de casa cedo, dizendo que iria até Matinhos ver o mar. Precisava respirar, disse. Voltaria no fim de semana.
O carro foi encontrado estacionado à beira da praia, janelas fechadas, chave na ignição. No painel, um bilhete:
“A estrada mudou. Não consigo voltar.”
Nada mais.
A polícia falou em fuga, afogamento, desespero. Procuraram durante semanas. Vasculharam praias, trilhas, rios, hospitais.
Eu sabia que estavam procurando no lugar errado.
Peguei a BR-277.
Conhecia aquela estrada desde menino. Cada curva, cada túnel, cada placa. Já descera a serra centenas de vezes. As araucárias iam ficando para trás, o ar mudava, a umidade aumentava, e o cheiro de resina começava a desaparecer sob a maresia que subia do litoral.
Meu destino era simples.
Refazer o caminho dela.
Encontrar o ponto onde alguma coisa tinha acontecido.
Ou, talvez, o ponto onde eu deveria ter parado.
Depois de Morretes, o rádio começou a falhar. Primeiro a música ficou baixa demais. Depois veio uma estática fina, quase confortável, misturada ao ruído da chuva.
Parei no posto do km 62.
Abasteci, entrei para tomar café e pedi o mesmo de sempre: forte, queimado, açúcar demais.
Paguei.
O homem do caixa me entregou o recibo.
Dobrei-o ao meio e coloquei no bolso da jaqueta.
Quando voltei para o carro, olhei o painel.
62,0.
Segui.
Sessenta e três.
Sessenta e quatro.
Sessenta e cinco.
A chuva engrossou.
Sessenta e seis.
Sessenta e sete.
Então o marcador saltou para setenta.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
Pensei em defeito elétrico. Fio solto. Vibração. Carro velho.
Continuei.
A névoa começou a descer pela serra.
Liguei os faróis.
O rádio soltou um chiado comprido e morreu.
Silêncio.
Só o motor, os pneus sobre o asfalto molhado e a chuva batendo no teto.
Quando cheguei ao que deveria ser o km 75, vi uma placa.
68.
Pisei no freio.
O carro parou atravessado no acostamento.
Desci.
A placa estava ali, branca, limpa, sem ferrugem. Parecia nova.
Olhei para trás.
A estrada subia suavemente, desaparecendo numa curva larga.
Olhei para frente.
Descia em direção à floresta.
Não havia bifurcação. Não havia obra. Não havia qualquer razão para aquela placa existir.
Voltei ao carro.
O painel marcava 75.
A placa dizia 68.
Fiz o caminho de volta.
Setenta.
Sessenta e nove.
Sessenta e oito.
Sessenta e sete.
Entre o 68 e o 67, alguma coisa aconteceu com a distância.
Não sei explicar de outra maneira.
O trecho parecia curto quando eu o percorria para frente. Na volta, demorava.
A linha branca no centro da pista parecia se esticar diante dos faróis.
Então vi alguém.
Uma figura atravessou a estrada.
Devagar.
Passos iguais.
Não parecia um animal. Também não parecia alguém com pressa de chegar a algum lugar.
Passei por ela.
Olhei pelo retrovisor.
Não havia ninguém.
Mas, por um instante, tive a impressão de reconhecer o jeito de andar.
Quando alcancei o 67, parei.
Fiquei alguns minutos com as mãos sobre o volante.
Depois voltei.
A placa do 69 tinha desaparecido.
Foi quando lembrei do recibo.
Tirei-o do bolso.
O número do quilômetro, escrito no rodapé, não era mais 62.
Era 68.
Fiquei olhando para o papel.
A chuva batia no para-brisa.
O recibo continuava seco.
O papel não podia mudar.
Papel não tem memória.
Pelo menos era o que eu pensava.
Abri a carteira e tirei uma fotografia.
Eu e Elisa em Matinhos, dois anos antes.
Ela estava de jaqueta azul, os pés descalços na areia, o cabelo solto sobre os ombros.
Olhei novamente.
A jaqueta parecia mais escura.
O cabelo, mais curto.
Aproximei a fotografia do rosto.
Ao fundo, onde eu tinha certeza de que existiam apenas mar e céu, havia uma pessoa.
Pequena.
De costas.
Parada perto da água.
Guardei a fotografia.
Não dormi naquela noite.
Também não comi.
Fiquei indo e voltando entre os quilômetros 67 e 70.
Sempre voltava ao mesmo trecho.
O recibo mudava pouco a cada vez que eu o olhava. O nome do posto ficava mais apagado. A data parecia menos nítida. O número às vezes era 62, às vezes 68.
Na fotografia, a figura continuava lá.
Eu não conseguia decidir se estava mais perto.
Era isso que me assustava.
Não saber se ela se aproximava ou se era eu que estava me afastando.
Na segunda noite, lembrei de uma conversa.
Elisa estava na cozinha.
Chovia naquele dia também.
Ela disse que a estrada mudava.
Eu ri.
Ela falou das árvores.
Disse que algumas pareciam diferentes quando a gente voltava.
Eu disse que árvores eram árvores.
Ela ficou me olhando.
Então perguntou:
“E se a gente é que muda sem perceber?”
Não respondi.
Ou talvez tenha respondido.
Não consegui lembrar.
Só me veio uma coisa estranha: o reflexo dos faróis dela no vidro da janela.
Dois pontos brancos.
Parados.
Atrás de mim.
Na terceira noite, o rádio ligou sozinho.
A tela acendeu.
Nenhuma música.
Apenas estática.
Depois uma voz.
Baixa.
Quase escondida pela chuva.
“Você passou por aqui antes.”
Fiquei imóvel.
A voz continuou:
“Só não parou.”
Desliguei o rádio.
Ele tornou a ligar.
Dessa vez não havia voz.
Apenas o som de uma respiração.
Avancei.
Não olhei mais para o painel.
Não procurei placas.
Dirigi como quem foge de alguma coisa que não sabe nomear.
A estrada se alongava diante de mim.
Retas que não terminavam.
Curvas repetidas no mesmo ângulo.
Árvores que pareciam voltar depois de terem ficado para trás.
A névoa fechou completamente.
O cheiro de maresia ficou mais forte.
Depois veio outro cheiro.
Perfume.
O perfume de Elisa.
E, por baixo dele, madeira velha, casa fechada, alguma coisa que permanecera muito tempo esperando que alguém abrisse uma porta.
Acelerei.
A névoa se abriu de repente.
Vi o carro dela.
Estava parado no acostamento.
Exatamente como haviam descrito.
Janelas fechadas.
Chave na ignição.
Mas não era possível.
Eu conhecia aquele trecho.
Não existia ali.
Entre o 68 e o 69 não havia estrada suficiente para existir qualquer coisa.
Desci do carro.
Aproximei-me.
O capô estava frio.
Toquei no vidro.
Embaçado por dentro.
Abri a porta do passageiro.
O bilhete ainda estava no painel.
A mesma letra.
A mesma dobra.
Mas as palavras tinham mudado.
“Eu não fui embora.”
Abaixo, uma segunda linha:
“Eu fiquei.”
E, depois:
“Você é que esqueceu.”
Virei o papel.
No verso havia uma data.
A data do nosso casamento.
Fiquei olhando para ela.
Era uma data que ainda não tinha acontecido.
Sentei no banco do passageiro.
O carro cheirava ao perfume dela.
E àquela outra coisa: madeira velha, casa fechada, algum lugar que permanecera muito tempo esperando que alguém abrisse uma porta.
Olhei para o retrovisor.
Vi Elisa.
Sentada no banco de trás.
Não parecia assustada.
Não parecia zangada.
Apenas me observava.
Virei.
O banco estava vazio.
Voltei ao espelho.
Ela continuava lá.
Foi então que me lembrei da chuva.
Não daquela noite.
De outra.
A cozinha.
A porta.
A voz dela.
Minha voz.
O barulho de alguma coisa caindo no chão.
Depois, o corredor.
Depois a chave.
Depois o motor.
Minha mão segurando o volante.
E os faróis dela aparecendo no retrovisor.
Por alguns segundos.
Eu poderia ter parado.
Não parei.
O resto veio aos poucos.
Não como lembrança.
Como coisas que o corpo reconhece antes da cabeça.
Eu sabia que ela estava atrás de mim.
Sabia que precisava voltar.
Continuei descendo.
O recibo escorregou do meu bolso e caiu no assoalho.
Peguei-o.
O nome do posto tinha desaparecido.
O número do quilômetro também.
No lugar deles havia apenas uma frase:
VOCÊ ESTÁ AQUI.
Levantei os olhos.
Elisa ainda estava no espelho.
Dessa vez, porém, não olhava para mim.
Olhava para a estrada.
Segui seu olhar.
Havia outro carro parado mais adiante.
O meu carro.
Reconheci a placa.
Reconheci a lanterna quebrada do lado esquerdo.
Reconheci até a mochila no banco traseiro.
Meu estômago fechou.
Então entendi que não estava olhando para o passado.
Estava olhando para o lugar onde eu ainda não tinha chegado.
Ou para o lugar de onde nunca saí.
Não sei quanto tempo fiquei ali.
Quando finalmente liguei o carro dela, o motor pegou na primeira tentativa.
A estrada diante de mim estava clara.
Sem névoa.
Sem placas.
Sem quilômetros.
Apenas asfalto molhado seguindo pela serra.
Olhei para o banco de trás.
Vazio.
No retrovisor, porém, Elisa continuava sentada.
Não tentei voltar.
Algumas estradas não levam de volta.
Elas apenas continuam.
O sol começou a nascer.
Mais tarde, alguém encontraria dois carros parados naquele trecho.
Talvez chamasse a polícia.
Talvez perguntasse de quem eram.
Talvez procurasse alguma explicação.
Não encontraria nenhuma.
Porque o lugar não existia no mapa.
E talvez fosse esse o problema.
Durante muito tempo achei que estava procurando Elisa.
Agora não tenho mais certeza.
Talvez ela tenha sido a única pessoa que conseguiu voltar.
Talvez tenha me esperado naquela estrada desde a noite em que eu não parei.
Talvez o quilômetro não tenha desaparecido.
Talvez tenha sido eu.
O mar já deve estar batendo na areia de Matinhos.
A água apaga as pegadas assim que elas aparecem.
Olho pela janela.
Elisa continua no banco de trás.
Ainda não disse mais nada.
Só espera.
E, pela primeira vez, não sei se está esperando que eu volte...
ou que eu finalmente pare.