segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Os Garotos do Manancial IX


Os barcos repousavam na areia como conspiradores cansados, alinhados lado a lado sob o sol, fingindo ser apenas madeira e tinta quando, na verdade, eram máquinas perfeitamente ajustadas para meter gente jovem em confusão. Qualquer adulto sensato teria percebido isso à distância e atravessado a praia pelo outro lado. Mas adultos sensatos raramente dão boas histórias.
Eu estava ali por acaso — que é como quase todas as grandes aventuras começam — quando vi Zeca do Vento surgir correndo, descalço, com a camisa pendurada no ombro e um plano mal explicado no olhar. Zeca tinha doze anos, talvez treze, dependendo de quem perguntasse, e era famoso por três coisas: saber ler o humor do mar, mentir com convicção e nunca voltar para casa no horário combinado.
— Hoje a gente vai longe — anunciou, sem dizer para onde, o que era um detalhe irrelevante.
O Manancial IX parecia o único barco disposto a ouvir esse tipo de promessa. Era maior que os outros, mais gasto também, com marcas de batalhas antigas contra pedras, correntes e decisões mal pensadas. Seu nome, pintado em azul torto, sugeria abundância, embora todos soubéssemos que “manancial” ali significava apenas peixe suficiente para não passar vergonha.
Zeca reuniu a tripulação: eu, por experiência questionável; Chico Damião, forte como um boi jovem e com a inteligência proporcional ao entusiasmo; e Jonas Pequeno, que tinha esse apelido não por ser pequeno, mas porque ninguém jamais o levou totalmente a sério — erro clássico da humanidade.
Partimos sem pedir permissão, pois pedir permissão é o primeiro passo para ouvir um “não”, e não estávamos interessados em estatísticas desfavoráveis.
O mar começou calmo demais, o que sempre deveria ser encarado como um aviso. Remávamos contando histórias exageradas sobre aventuras passadas, todas maiores do que realmente foram, o que é um costume respeitável entre garotos e políticos. Zeca assumiu o comando com a autoridade natural de quem não tinha nenhuma.
— Se o vento virar, a gente vira junto — explicou, como se fosse um princípio científico.
E o vento virou.
Não de forma educada, mas como um sujeito ofendido. As bandeiras no mastro começaram a estalar, e o Manancial IX rangeu de um jeito que parecia uma reclamação formal. Jonas Pequeno parou de sorrir. Chico Damião remou com mais força do que técnica. Eu comecei a calcular, em silêncio, como explicaria aquilo se não voltássemos.
A corrente nos puxou para longe da costa, e naquele instante compreendemos algo importante: não éramos exploradores destemidos, éramos apenas garotos muito confiantes que haviam ido longe demais. Essa descoberta costuma acontecer tarde demais para ser útil.
— É só contornar — disse Zeca, com a tranquilidade de quem acabara de inventar a solução.
O barco dançava, o mar discutia, e nós negociávamos com ambos usando a única moeda disponível: teimosia. Houve um momento em que o silêncio caiu sobre nós, pesado como o céu antes da chuva. Não por medo declarado, mas por respeito. Até garotos aprendem, cedo ou tarde, que certas forças não estão nem aí para bravatas.
Foi Jonas Pequeno quem salvou o dia — o que prova que subestimar alguém é sempre uma aposta ruim. Ele notou uma mudança no ritmo das ondas, quase imperceptível, e apontou um caminho que parecia menos hostil. Seguimos sem discutir, porque quando a esperança aparece, ninguém pede currículo.
O retorno foi lento, cansativo e glorioso da forma discreta que só os sobreviventes conhecem. Quando a areia finalmente tocou o casco, caímos sentados, sujos, exaustos e felizes como se tivéssemos descoberto um continente inteiro, quando na verdade apenas voltamos inteiros.
Os outros barcos nos observavam em silêncio. O Pamela, o Paula, todos ali, imóveis, como velhos sábios que já tinham visto aquilo acontecer centenas de vezes e sabiam que aconteceria de novo.
— Amanhã a gente vai mais cedo — disse Zeca, quebrando o silêncio.
Ninguém discordou. Não porque fosse uma boa ideia, mas porque algumas promessas não são feitas para serem cumpridas — apenas para manter o espírito inquieto funcionando direito.
E assim aprendi que crescer não é abandonar aventuras, mas aprender a contar menos sobre elas. E que certos barcos, parados na areia, sabem exatamente quem somos — e esperam.

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