segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Amanhã Finjo Que Não Aconteceu

Amanhã Finjo Que Não Aconteceu

Acordei mal. Mal de verdade. A boca seca, a cabeça pesada, o corpo parecendo um terreno abandonado. A casa da praia estava do mesmo jeito. Perfeito. Pelo menos a gente combinava.
A lua ainda pendurada no céu como um erro que ninguém corrigiu. Nuvem passando rápido, sem olhar para trás. Até o céu sabe a hora de ir embora. O coqueiro batendo no muro. Não forte. Irritante. Como quem não pede desculpa e continua. O muro aguenta calado. Muro aprende cedo que reclamar não adianta.
Eu encostei ali fora. Parecia uma cena importante, mas não era. Nada é. Só mais uma noite mal resolvida com cheiro de sal e álcool velho.
A casa é feia. Não feia de estilo. Feia de verdade. Pintura descascando, parede suando, mofo com personalidade. Casa bonita mente. Esta não. Esta mostra tudo. Igual a mim depois da terceira dose.
Entrei tropeçando. O chão gelado me lembrou que ainda tenho corpo. Pena. O portão rangeu atrás de mim, rindo baixo. Portões sempre riem quando você volta sozinho. Mesa suja. Copos errados. Garrafa vazia. Não lembro do último gole, mas lembro da intenção: esquecer alguma coisa que continua lá.
A pia cheia. Água parada. Reflexo torto. Olhei rápido demais e vi alguém que não conheço direito. Evitei. Ressaca também é covardia.
O mar estava ali, perto, bufando. Um bicho grande que não liga para você. Isso dá paz. Pessoas ligam demais e entendem de menos. Sentei numa cadeira que quase caiu. A gente se entende. Coisas firmes demais exigem postura. Não tenho.
A cabeça bateu na parede. De leve. De propósito. Só para sentir algo que não fosse arrependimento. A parede não pediu desculpa. Nem eu.
A casa já viu coisa pior. Gente chorando sem motivo bom. Gente prometendo mudança com cerveja na mão. Gente indo embora jurando que volta. Ninguém volta igual.
A lua sumiu. Ainda bem. Luz demais deixa o erro nítido. No escuro ele fica só cansado. Bebi água da torneira. Gosto ruim. Mas desceu. Tudo desce quando você já desistiu de escolher.
O coqueiro continuou batendo. O muro continuou calado. A casa continuou em pé. Eu também, por enquanto. Não por força. Por falta de alternativa. Amanhã o sol vem. Sempre vem. Não para salvar nada. Só para mostrar o estrago com mais detalhe.
Encostei na parede. Respirei fundo. Doeu. Respiração às vezes dói mais que soco.
A casa não me julgou.
O mar não prometeu.
Eu não melhorei.
E foi isso

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