segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Dançando no Abismo

fragmentos encontrados depois do último gole

A cidade acorda cedo demais
pra gente que já desistiu.

Dez anos longe não limpam nada.
Só ensinam a ficar em silêncio sem parecer louco.

Solidão não dói.
Ela explica.
E quando começa a explicar, apodrece.

Crianças riem.
Não porque entenderam.
Porque não precisam.

Adultos compram respostas
como quem compra pão velho:
sabem que tá duro,
mas mastigam mesmo assim.

Certeza é anestesia.
Dura pouco.
Vicia rápido.

Perguntas boas não vendem.
Incomodam.
E ninguém paga pra sangrar por dentro.

Rotina não salva.
Ela conserva.
Gente em formol.

Um café.
Sem açúcar.
Por doze anos.

Açúcar é uma traição pequena.
Por isso funciona.

Liberdade começa em gestos ridículos
que ninguém aplaude.

A vida não é absurda.
Ela só não liga.

Deus é um bom álibi
pra continuar ajoelhado.

Virtude é a palavra favorita
de quem desistiu da força.

Segurança é medo bem falado.

O futuro prometido
tem cheiro de quarto fechado.

O “último homem” sorri pouco.
Não porque sofre.
Porque não sente o bastante.

Fracasso não mata.
Explicação demais, sim.

Castelos de areia caem.
Sem drama.
Sem tese.
Sem livro.

Cair não é o problema.
Querer chão é.

A montanha não responde.
Ela testa.

Sentido é coisa de quem ainda acredita
que a vida deve algo.

Dizer “sim” não é otimismo.
É economia de energia.

O abismo não chama.
Ele espera.

Dançar não é vencer.
É não sair correndo.

Coragem não grita.
Ela fica.

No fim,
o eco não consola.
Mas acompanha.

E às vezes,
isso basta.


Nenhum comentário: