fragmentos encontrados depois do último gole
A cidade acorda cedo demais
pra gente que já desistiu.
Dez anos longe não limpam nada.
Só ensinam a ficar em silêncio sem parecer louco.
Solidão não dói.
Ela explica.
E quando começa a explicar, apodrece.
Crianças riem.
Não porque entenderam.
Porque não precisam.
Adultos compram respostas
como quem compra pão velho:
sabem que tá duro,
mas mastigam mesmo assim.
Certeza é anestesia.
Dura pouco.
Vicia rápido.
Perguntas boas não vendem.
Incomodam.
E ninguém paga pra sangrar por dentro.
Rotina não salva.
Ela conserva.
Gente em formol.
Um café.
Sem açúcar.
Por doze anos.
Açúcar é uma traição pequena.
Por isso funciona.
Liberdade começa em gestos ridículos
que ninguém aplaude.
A vida não é absurda.
Ela só não liga.
Deus é um bom álibi
pra continuar ajoelhado.
Virtude é a palavra favorita
de quem desistiu da força.
Segurança é medo bem falado.
O futuro prometido
tem cheiro de quarto fechado.
O “último homem” sorri pouco.
Não porque sofre.
Porque não sente o bastante.
Fracasso não mata.
Explicação demais, sim.
Castelos de areia caem.
Sem drama.
Sem tese.
Sem livro.
Cair não é o problema.
Querer chão é.
A montanha não responde.
Ela testa.
Sentido é coisa de quem ainda acredita
que a vida deve algo.
Dizer “sim” não é otimismo.
É economia de energia.
O abismo não chama.
Ele espera.
Dançar não é vencer.
É não sair correndo.
Coragem não grita.
Ela fica.
No fim,
o eco não consola.
Mas acompanha.
E às vezes,
isso basta.
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