domingo, 30 de agosto de 2026

O DODGE DAS SOMBRAS


O DODGE DAS SOMBRAS

Sobriedade, isolamento e a última dose na Serra do Mar

Tadeu Everton Zamoiski agosto de 2026

I. O posto
A BR-277 descia a Serra do Mar como se tivesse sido aberta à força entre a montanha e a mata. Durante o dia, a estrada era apenas uma estrada: caminhões carregados em direção ao porto, ônibus de turismo, carros seguindo para o litoral, motociclistas que pareciam não temer a chuva. Depois da meia-noite, porém, alguma coisa mudava. Não na estrada propriamente dita, mas naquilo que se podia ver dela. A neblina chegava devagar, apagando primeiro as árvores mais distantes, depois os barrancos, os guard-rails, as placas. Por fim, restavam apenas alguns metros de asfalto molhado e a impressão de que qualquer coisa poderia estar esperando logo depois deles.
O posto ficava numa descida, pouco depois de uma sequência de curvas fechadas. Era pequeno, antigo e suficientemente afastado para que, durante as madrugadas, o mundo parecesse terminar ali. Havia três bombas sob a cobertura, uma loja de conveniência que fechava antes da meia-noite e uma guarita de madeira onde ficavam o caixa, o rádio e um relógio redondo que nunca atrasava.
Foi ali que comecei a trabalhar depois de dezoito meses sem beber.
Não digo isso com orgulho.
Há coisas das quais a gente deveria se orgulhar, suponho. Criar um filho. Construir uma casa. Salvar alguém de um incêndio. Ficar dezoito meses sem beber depois de passar quase vinte anos tentando se destruir não me parecia uma conquista. Parecia apenas manutenção.
Como escovar os dentes.
Como pagar uma conta.
Como respirar.
Se eu parasse, sabia o que aconteceria.
O álcool havia levado a maior parte das coisas que eu julgava importantes, embora essa frase seja simples demais para explicar o estrago. Minha esposa não desapareceu numa noite. Meu filho não deixou de falar comigo de uma vez. Minha casa não foi arrancada das minhas mãos por alguma tragédia repentina. Tudo aconteceu aos poucos, em parcelas pequenas, quase administrativas. Uma discussão. Uma promessa. Outra discussão. Um pedido de desculpas. Uma manhã sem memória. Uma conta que não deveria existir. Uma porta fechada.
Quando percebi, minha vida já não parecia uma vida arruinada.
Parecia a vida de outra pessoa, e eu apenas tinha esquecido de sair dela.
O gerente do posto não perguntou muita coisa quando me contratou.
Disse apenas que o turno era da meia-noite às seis.
Depois acrescentou:
— Ninguém gosta de trabalhar aqui nesse horário.
— Eu gosto de ficar sozinho.
Ele me olhou por alguns segundos.
— Isso passa.
Na época, não entendi.
Hoje não tenho certeza se ele estava falando comigo.
II. 3h15
Nas primeiras noites, aprendi a rotina.
Depois da uma, quase não havia movimento. Às duas, eu fazia café. Às duas e meia, conferia o caixa, organizava as prateleiras e ligava o rádio. Gostava das estações AM porque os locutores pareciam cansados. Falavam devagar, anunciavam músicas antigas e davam notícias que ninguém estava acordado para ouvir.
Às vezes, quando a vontade de beber vinha, eu aumentava o volume.
A vontade não tinha forma.
Essa era a pior parte.
Não era uma criatura.
Não era uma voz.
Era apenas uma ideia.
Você podia combatê-la. Podia ignorá-la. Podia tomar banho frio, caminhar, mastigar alguma coisa, ligar para alguém. Eu tinha aprendido isso durante o tratamento. A vontade vinha, crescia, ocupava espaço e depois diminuía.
Era preciso sobreviver ao intervalo.
Na quarta madrugada, o relógio marcou 3h15.
Ouvi o motor antes de ver o carro.
Era um som grave, antigo, quase confortável. Um motor que parecia conhecer a estrada.
Olhei para a pista.
Os faróis atravessaram a neblina.
O Dodge entrou devagar sob a cobertura.
Preto.
Comprido.
Brilhando sob a chuva.
Parou diante da bomba número 2.
Fiquei esperando o motorista sair.
Ele não saiu.
Peguei a caneta e fui até o carro.
Bati no vidro.
— Vai abastecer?
O vidro começou a descer.
Antes de ver o motorista, senti o cheiro.
Cachaça.
Meu corpo reconheceu antes da minha cabeça.
Foi isso que me fez recuar.
Então vi o homem.
Durante alguns segundos, não pensei em fantasma.
Não pensei em loucura.
Pensei apenas que conhecia aquele rosto.
Era o meu.
Não o rosto que eu tinha aos quarenta e quatro anos. Era o rosto que eu tinha antes de perder tudo. Mais cheio. Mais vermelho. Os olhos brilhando daquele jeito que eu aprendera a odiar porque, durante muito tempo, achei que aquilo fosse felicidade.
Havia uma garrafa no banco do passageiro.
Ele sorriu.
— Demorou.
Não respondi.
Olhei para trás.
A guarita parecia muito distante.
Quando voltei a encará-lo, ele continuava sorrindo.
— Você está bem? — perguntei.
Foi uma pergunta idiota.
Ele pareceu gostar dela.
— Melhor que você.
A garrafa estava agora em sua mão.
Não vi quando ele a pegou.
— Faz quanto tempo?
— O quê?
— Que você não bebe.
Não respondi.
Ele sabia.
Era evidente que sabia.
Mas eu não queria ser a primeira pessoa a dizer.
— Dezoito meses — respondeu por mim.
Meu estômago apertou.
— Quem é você?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você sabe.
O relógio da guarita marcava 3h17.
— Não.
O sorriso diminuiu.
— Ainda não.
Ele tomou um gole.
Naquele instante, minha garganta queimou.
Não como uma lembrança.
Como sede.
Às 3h20, o motor acelerou.
O Dodge saiu.
Fiquei parado sob a cobertura até os faróis desaparecerem.
Depois fui até a bomba 2.
Não havia marcas de pneus.
A chuva podia ter apagado.
Era o que pensei.
Naquela época, ainda procurava explicações porque acreditava que explicações tornavam as coisas menores.
III. A outra coisa
Na noite seguinte, não esperei na guarita.
Às 3h10, já estava de pé, olhando para a estrada.
O carro não apareceu.
3h12.
Nada.
3h14.
Ainda nada.
Quando o relógio marcou 3h15, as luzes apagaram.
Não houve queda de energia na região. O rádio simplesmente morreu, as bombas ficaram escuras e a guarita mergulhou numa sombra tão completa que, por alguns segundos, achei que tivesse ficado cego.
Então ouvi alguma coisa na parede.
Uma unha.
Ou algo parecido com uma unha.
Arrastando-se lentamente pela madeira.
Fiquei imóvel.
O som contornou a guarita.
Parou atrás de mim.
E alguém disse:
— Pai?
Não me virei.
Meu filho tinha oito anos quando começou a me chamar assim com medo.
Eu sabia exatamente como aquela voz soava.
Mas também sabia que meu filho tinha trinta e dois anos.
— Pai?
A mão que segurava a lanterna começou a tremer.
Não acendi.
— Abre.
O som da madeira começou novamente.
Dessa vez, do outro lado da porta.
Raspe.
Raspe.
Raspe.
Eu não sei quanto tempo aquilo durou.
Quando as luzes voltaram, o relógio marcava 3h20.
O Dodge estava na bomba 2.
Não tinha ouvido o motor chegar.
O homem estava olhando para mim através do para-brisa.
Não saí.
Ele não buzinou.
Não fez sinal.
Esperou.
Quando o relógio marcou 3h21, o carro simplesmente não estava mais ali.
Não o vi partir.
Olhei para a estrada por tempo demais, tentando descobrir em que momento havia fechado os olhos.
Na manhã seguinte, encontrei três marcas na madeira atrás da guarita.
E uma coisa que não deveria estar ali.
Uma tampinha metálica.
Velha.
Enferrujada.
Levei-a até a lixeira.
Depois tirei de lá.
Fiquei alguns segundos segurando aquela coisa na palma da mão.
Não havia nada especial nela.
Era apenas uma tampa de garrafa.
Joguei fora novamente.
IV. O homem que lembrava
O Dodge voltou.
Não todas as noites.
Isso tornou tudo pior.
Se aparecesse sempre, eu poderia chamar aquilo de rotina.
Mas algumas madrugadas passavam normalmente.
Eu começava a acreditar que tinha imaginado tudo.
Então, às 3h15, os faróis surgiam.
Na terceira vez, o homem falou sobre minha esposa.
Não sobre o dia em que ela foi embora.
Sobre uma terça-feira qualquer.
Disse que eu tinha chegado em casa com uma garrafa escondida dentro da mochila. Minha esposa estava na cozinha, cortando tomates. Meu filho fazia a lição na mesa.
— Você entrou sem tirar os sapatos — ele disse.
Meu peito apertou.
— Você deixou marcas de lama no corredor.
Não perguntei como ele sabia.
— Ela viu a garrafa quando você se abaixou para pegar a carteira.
Ele me observava.
— Você disse que não era sua.
Olhei para o relógio.
3h18.
— Eu não disse isso.
O homem sorriu.
— Disse.
E então repetiu uma frase.
A frase exata.
Não vou escrevê-la aqui.
Há coisas que pertencem aos mortos.
E, naquela noite, pela primeira vez, comecei a pensar que talvez a pior coisa sobre aquele homem não fosse o fato de ele conhecer o meu passado.
Era a maneira como ele o conhecia.
Como alguém que tinha estado lá.
V. A bomba 2
Depois de algum tempo, parei de perguntar quem ele era.
Ele também parou de responder.
Começamos a conversar.
Essa é uma frase perigosa de escrever.
Porque, quando digo “conversar”, parece que existia alguma normalidade naquilo. Não existia.
Eu nunca entrava no carro.
Nunca aceitava a garrafa.
Nunca ficava depois das 3h20.
Mas ia até ele.
Às vezes, porque tinha medo da coisa que circulava do lado de fora da guarita.
Outras vezes, porque tinha medo de descobrir que o Dodge não apareceria.
Ele percebia isso.
— Está vendo? — dizia.
— O quê?
— Você sente minha falta.
Eu dizia que não.
Ele ria.
Na sexta visita, havia uma mochila azul no banco traseiro.
Meu filho tinha tido uma igual.
Olhei apenas uma vez.
O homem percebeu.
— Quer ver?
— Não.
— Talvez tenha alguma coisa sua aí dentro.
— Não.
— Talvez seja por isso que você nunca voltou.
— Cala a boca.
Ele se inclinou para perto da janela.
Foi então que percebi que seus olhos não acompanhavam os movimentos do rosto.
Ele sorria.
Mas os olhos continuavam imóveis.
— Você sempre teve medo de olhar.
Naquela noite, não houve apagão.
O Dodge foi embora às 3h20.
E eu fiquei parado diante da bomba 2 até as seis da manhã.
VI. O rosto errado
Na última noite, chovia desde antes do meu turno começar.
A estrada estava quase vazia.
Às duas e quarenta, o rádio começou a falhar.
Às duas e cinquenta, desliguei.
Às três, percebi que havia parado de respirar direito.
Não porque estivesse com medo do Dodge.
Tinha medo de outra coisa.
A ideia de que ele não aparecesse.
Às 3h15, o motor surgiu atrás de mim.
Não na estrada.
Atrás da guarita.
O som estava tão próximo que senti a vibração no chão.
Fiquei imóvel.
Depois me virei.
O Dodge estava diante da bomba 2.
Não sei como tinha chegado.
Não ouvi pneus.
Não ouvi água.
Não ouvi a porta.
O homem estava sozinho.
Caminhei até o carro.
A janela desceu.
Por alguns segundos, pensei que estivesse olhando para mim de verdade.
Não para a minha versão mais jovem.
Para mim.
Então a impressão desapareceu.
O rosto dele estava errado.
Não deformado.
Pior.
Familiar demais.
Era uma coleção de rostos que eu tinha usado ao longo da vida, todos tentando ocupar o mesmo lugar. O rapaz que começou a beber. O homem que prometia parar. O marido que mentia. O pai que não atendia o telefone.
E, entre eles, alguma coisa que não era minha.
Ele ergueu a garrafa.
— Hoje você entende.
Olhei para o relógio.
3h17.
— Entendo o quê?
— Que eu nunca pedi para você beber.
O arranhado começou atrás de nós.
Lento.
Pesado.
A coisa estava na guarita.
— Eu só esperei.
Minha garganta secou.
— Esperou o quê?
Ele aproximou a garrafa da janela.
— Você.
O som na parede aumentou.
As luzes piscaram.
— Você acha que precisa beber porque está triste — disse ele. — Mas não é isso.
Não respondi.
— Você bebe porque existe uma parte de você que prefere desaparecer.
A frase me atingiu com mais força do que deveria.
Porque eu sabia que era verdade.
Ele percebeu.
Sempre percebia.
— Uma dose — disse.
Olhei para a garrafa.
O líquido estava escuro.
Por um instante, pensei que fosse cachaça.
Depois tive certeza de que não era.
Mas estendi a mão mesmo assim.
Meus dedos tocaram o gargalo.
E tudo ficou silencioso.
A chuva.
A estrada.
O arranhar.
O motor.
Até a minha respiração.
Então me lembrei da sarjeta.
Não como uma grande revelação.
Lembrei-me do frio.
Do gosto de sangue na boca.
De uma formiga subindo pelo meu braço.
De uma mulher passando na calçada sem olhar para mim.
E de perceber, antes de qualquer outra coisa, que eu queria beber de novo.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo depois da vergonha.
Mesmo depois do medo.
Foi ali que compreendi.
Não existia uma última dose.
Nunca existiria.
Haveria sempre outra.
Outra noite.
Outra promessa.
Outra manhã.
Retirei a mão da garrafa.
O homem não pareceu surpreso.
Pela primeira vez desde que eu o conhecera, ele pareceu cansado.
— Então é isso.
— É.
Ele olhou para mim.
— Você vai continuar?
Pensei em responder.
Não respondi.
Porque não sabia.
Não sabia o que faria amanhã.
Não sabia o que faria quando meu filho ligasse ou quando a solidão voltasse ou quando alguém colocasse uma garrafa diante de mim numa mesa.
Eu não sabia nada sobre o amanhã.
Apenas sabia o que fazer naquela madrugada.
Dei um passo para trás.
O relógio marcou 3h19.
O homem assentiu lentamente.
Depois levantou o vidro.
O Dodge permaneceu parado.
3h20.
As luzes do posto continuaram acesas.
O rádio, desligado, começou a tocar sozinho.
Uma música antiga.
Não reconheci.
Olhei novamente para o carro.
O banco do motorista estava vazio.
A porta estava fechada.
Não havia ninguém lá dentro.
Atrás de mim, alguma coisa respirou.
Não me virei.
O motor morreu.
Quando tive coragem de olhar outra vez, o Dodge não estava mais ali.
Apenas a bomba 2.
A chuva.
E uma pequena tampa de garrafa sobre o concreto.
Dessa vez, não toquei nela.
VII. Depois
Trabalhei naquele posto por mais dois meses.
Depois pedi transferência.
O gerente não fez perguntas.
Quando fui embora, perguntou apenas se eu tinha dormido melhor.
Eu disse que sim.
Ele me olhou como se soubesse que eu estava mentindo.
Hoje moro longe da Serra do Mar.
Nunca mais vi o Dodge.
Nunca mais ouvi aquela coisa arranhando a madeira.
Mas algumas noites ainda acordo às 3h15.
Não olho para o relógio.
Aprendi a não confirmar certas coisas.
Às vezes, quando a chuva é forte, sinto o cheiro.
Cachaça.
Ou talvez apenas uma lembrança.
Fico deitado no escuro.
Espero.
A vontade vem.
Às vezes pequena.
Às vezes enorme.
Mas agora sei uma coisa que não sabia antes.
Eu não preciso derrotá-la.
Não preciso destruí-la.
Não preciso provar que sou mais forte.
Só preciso esperar que ela passe.
Uma noite.
Uma hora.
Um minuto de cada vez.
Tenho medo de mim mesmo.
Talvez sempre tenha tido.
Mas existe uma diferença entre fugir de alguma coisa e permanecer diante dela.
Naquela madrugada, na bomba número 2, eu permaneci.
E, por enquanto, isso basta.


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